quinta-feira, 6 de setembro de 2007

A companhia de Elisabete

-Não se vá ainda - clamou com voz embargada a velha Bete.
Já era tarde, ela sabia, mas o seu coração queria atrasar a despedida. Por isso, insistia em seu pedido:
-Eu peço que fique, john, por favor!
Não sabia ao certo se realmente o queria ali porque John a agradava ou porque lhe desagradava a solidão. Ela nunca gostou de estar só, embora quase sempre o estivesse.
John certamente não era muito loquaz;porém, o seu silêncio anunciava uma presença humana. E isso talvez bastasse a Elisabete, que em sua casa já não tinha mais nem a companhia de animais.
Poucos a suportavam mas do que um minuto de conversa. Seu ar melancólico e suas palavras ácidas afastavam os mais atrevidos; John, por ouvir mal e por interesses, era uma das poucas exceções.
-Sinto muito, Elisabete, mas o seu horário se esgotou - Anuciou John para desespero de Elisabete que, além de ter de se privar da companhia de john, era obrigada a desembolsar 55 R$ por hora de companhia daquele homem que tinha outros clientes para atender.

Esquecimentos

No gênesis, o primeiro livro das escrituras, está escrito que deus pôs o arco-íris no céu para que sempre se lembre da promessa que havia feito aos homens de não os destruir por meio de mais um dilúvio. Mas do jeito que Deus anda esquecido das suas promessas de felicidade para humanidade, é de se duvidar que um dia Ele venha a Se lembrar de pôr sequer no céu o arco-íris.
E por falar em esquecimento... ao me ocorrer na memória que eu devia lembrar a Deus para Ele não esquecer que promessa é dívida, eu quase me esqueço que no apocalípse, o último livro, está escrito que Deus novamente destruirá a maioria esmagadora da humanidade num grande lago - de fogo, desta vez.
Mas em considerando que meu sígno astrológico é peixes, o mais esquecido do horóscopo, e ponderando que morrer assado deve ser bem pior do que afogado, concluo que morrer dentro d'água por ter visto um perjúrio divino é preferível a ter que ver os cristãos puxando a sardinha para a brasa deles por ter lembrado a Deus da Sua apocalíptica promessa.
- Como anda o seu coração? - perguntou-me o médico.
- Está batendo, doutor... - disse-lhe.
- Sim,claro, e o que há de estranho nisso? - perguntou-me aborrecido o homem de jaleco branco.
- É que ele está batendo tão acelerado que pode, a qualquer momento, chocar-se violentamente contra outro coração desavisado. - Respondí-lhe com ar preocupado.

tradução da letra de bob dylan

abaixo a tradução da letra da musica de Bob Dylan

Eu não posso entender,
Ela largou minha mão
E deixou-me aqui de cara com a parede.
Eu realmente gostaria de saber
O porquê de ela ter ido embora,
Mas eu não posso entendê-la em tudo.
Nós nos beijamos no calor selvagem de toda uma noite,
E ela disse que nunca esqueceria.
No entanto, agora que veio a aurora,
É como se eu não estivesse aqui,
Pois ela age como se nós nunca tivéssemos nos conhecido.

É tudo desconhecido para mim,
Como algum mistério,
Ou até mesmo um mito.
Ainda é difícil pensar que
Aquela mulher é a mesma
Que estava comigo na noite passada.
Das sombras, dos sonhos eu fugi,
Mas será que mesmo assim ainda estou sonhando?
Eu gostaria que ela abrisse
Sua voz uma vez e dissesse alguma coisa,
Ao invés de agir como se nunca tivéssemos nos conhecido.

Se ela não estava se sentindo bem,
Então porque ela não disse,
Ao invés de voltar suas costas para meu rosto?
Sem dúvida alguma,
Ela parecia muito distante
Para que eu voltasse a correr atrás dela.
Embora a noite tenha passado como num giro de redemonhinho,
Eu ainda posso me lembrar de seus sussurros.
Mas evidentemente ela não,
E evidentimente ela não se lembrará,
Ela age como se nós nunca tivéssemos nos conhecido.

Se eu não tinha como advinhar,
Eu confessaria orgulhoso
De, pelo menos, ter tentado.
Se eu fiquei com ela por muito tempo
Ou se tinha feito alguma coisa errada,
Eu gostaria que ela dissesse-me o que é, e eu correria e esconderia.
Sua saia balançava enquanto eu tocava meu violão,
Sua boca era molhada e úmida.
Mas agora alguma coisa tem mudado
Pois ela não é mais a mesma,
Ela age como se nós nunca tivéssemos nos conhecido.

Eu estou partindo hoje,
Seguirei o meu caminho
De tudo isso eu não consigo dizer muita coisa,
Mas se você me quiser,
Eu posso ser como você
E fingir que nós nunca nos tocamos.
E se alguém me perguntar, “É fácil esquecer?”
Eu direi, “É fácil faze-lo,
Você conquista alguém,
E depois finge que você nunca a conheceu”

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Gritos e silencios pós-modernos


Haverá um dia em que as portas não serão mais que ilusões de ótica e os nossos olhares verão apenas as lacunas das paredes que deixaram de existir. Pois que estas já desabaram em meio às ruínas de um tempo que já não há mais; e que se um dia houve, foi por um capricho de uma razão caquética e estagnada, que agora cansou de criar fantasmas e casas mal-assombradas.

Hoje meus olhos vêm umbrais em que os portões foram arrancados, com o resto de nossas ilusões, pelos braços fortes do devir. E também nossas utopias já não ocupam espaço nos saguões do tempo. Pois o nosso espaço e o nosso tempo sempre foram utopias ideologicamente construídas. E em verdade, os arautos do progresso e os apóstolos de uma nova fé que fingem ignorar, embora não admitam, sabem que já houve desmoronamento demais para continuarmos acreditando em castelos erigidos no ar...

Eles inutilmente tentam esconder esta última verdade, mas nossos ouvidos já a descobriram e o nosso espírito agora estranhamente sente-se nostálgico daquelas velhas ilusões.

Por isso, hoje acordei com um gosto de perda no lado esquerdo da língua e minha saliva ardia meus lábios... Ah! Quantos escarros foram precisos para que minha boca gritasse todas as minhas dores!! E quantas cusparadas eu dei diante do abismo e no teto do céu para aliviar o peso das minhas frustrações!!! Mas cuspir no chão não lava a imundície das ruas e cuspir para cima não atinge a face de Deus. Porque Deus não tem face, nem culpa para descontarmos as nossas mancadas, as nossas desditas;

-Mas quem as tem? - pergunta o meu desespero.

- Ninguém!!- responde a voz experiente da minha desilusão.